ARTIGOS

 

 

 

 

Advocacia

 

Hoje devo falar na advocacia, esse nobre ofício que exerço há mais de uma década e no qual fraternizo a preciosa companhia do titular dessa coluna, meu caríssimo colega e amigo Dr. Samir Salman que honrou-me com o convite de aqui externar meus sentimentos como advogado militante.

 

Não é fácil falar da nossa profissão, especialmente quando temos de expô-la à sociedade e mostrá-la como se encontra em nossos dias: espoliada, diminuída, desprestigiada. É tarefa triste e revoltante, mas necessária para que reflitamos – advogado e sociedade – sobre alternativas de mudanças positivas.

 

O advogado, caros leitores, é o único profissional liberal cuja existência é prevista e reconhecida na Constituição da República, no entanto ironicamente é o profissional liberal com menor prestígio ante a sociedade e as instituições públicas.

 

Nós, advogados, alcançamos um estágio de prescindibilidade tal que hoje estamos sendo substituídos por funcionários de cartórios e tabeliães, isso sem falarmos em uma Defensoria Pública que mais e mais se organiza e se estrutura para prestar um importante serviço social mas que, diga-se, muitas vezes contempla com a gratuidade quem a ela não faz jus.

 

A advocacia tradicional está ruindo, e nós advogados autônomos estamos assistindo o fim de uma era, contemplando a devastação institucional promovida por um Estado demagógico comandado por usurpadores comprometidos com um grande projeto de poder e controle social, em um círculo hermético no qual somente os grandes interesses econômicos recebem atenção e cuidado especial.

 

E assim se encontram os advogados do Brasil: curvados sob o peso de uma legislação que lhes tolhe a cada dia uma parte do mercado de trabalho, forçando-os a se engalfinharem na busca de empregos em grandes escritórios de advocacia que, na maioria das vezes, nada mais são que uma espécie de holdings advocatícias cujo objetivo principal é o lucro fácil que escorre das entranhas de tribunais  falidos.

 

Mesmo com essa realidade nefasta para a advocacia hoje o que vemos é uma classe desunida, permeada por um individualismo suicida, por um sentimento de “salve-se quem puder” que será mesmo a pá-de-cal em nosso ofício.

 

É exatamente isso que tornou a advocacia doente, fraca, vulnerável; mas ainda há mais: a advocacia contemporânea é uma profissão cujos representantes preocupam-se mais com a vaidade dos seus cargos que com suas atribuições institucionais; uma profissão na qual suas lideranças empenham-se em servir de escoras à administradores públicos politiqueiros e relegam nós, advogados, ao mais completo esquecimento; uma profissão que é menosprezada e agredida  pelas demais instituições públicas sem que seus representantes a defendam com destemor e lealdade.

 

Hoje, mais que nunca, a advocacia precisa de uma representação efetiva e o advogado um braço forte que lhe sirva de instrumento de luta por suas prerrogativas profissionais; uma representação comprometida com os ideais democráticos, que crie oportunidades a novas lideranças e que seja leal ao advogado – e somente a ele.

 

Se a realidade não nos é favorável urge que a classe se reúna em torno de um propósito de valorização do advogado buscando com isso a sobrevivência da advocacia e a garantia de um futuro melhor e mais digno.

 


Samir Adel Salman
IBEJUS – Instituto Brasileiro de Estudos Jurídicos e Sociais

 

 

 

             
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